06 · Limites da responsabilização
Responsabilidade pessoal não pode ser exercida de dentro do caos
A maioria dos participantes do estudo demonstrava certo senso de responsabilidade pessoal — contraíram crédito no mercado e se sentiam responsáveis pelas próprias dívidas.
Sociedades contemporâneas de orientação ocidental valorizam as normas culturais relacionadas ao autogerenciamento e controle, segundo as quais os indivíduos devem assumir as rédeas da própria vida. Essas normas exerceram uma influência de duplo efeito sobre os participantes: ao mesmo tempo em que incentivaram a tomada de risco, dificultaram a resolução, já que os consumidores tentaram resolver os problemas sozinhos.
Quando falharam em quitar as dívidas, sentiram-se responsáveis por isso e foram acometidos por uma sensação intensa de fracasso pessoal. Em consequência, tornou-se ainda mais difícil encarar o processo (árduo) de resolução.
Pesquisas anteriores, observaram Julio e Delane (2025), abordaram o superendividamento focando em antecedentes individuais — impulsividade, baixa letramento financeiro, autocontrole insuficiente —, reforçando narrativas vigentes e contribuindo para um discurso dominante de responsabilização do consumidor.
Esse enfoque tende a ignorar o papel de credores, estratégias de marketing e dinâmicas estruturais de mercado na origem e perpetuação do problema. Obrigações e responsabilidades em torno da dívida do consumidor, mostra a literatura, vêm sendo deslocadas do estado e das corporações para os consumidores (Giesler e Veresiu, 2014). O discurso se apoia na existência de um consumidor otimizado, racional e financeiramente educado, capaz de gerenciar riscos com efetividade.
Mas a pesquisa de nossos autores mostra que consumidores superendividados estão frequentemente emocionalmente abalados, ansiosos, deprimidos e paralisados pelas próprias circunstâncias. Ansiedade não é base sólida para ação racional (Beck, 1992). Como argumenta Frank (1998, 2013), indivíduos não conseguem exercer responsabilidade pessoal de dentro do caos. Os riscos contemporâneos são complexos e responsabilidade (accountability) é difícil de atribuir (Beck, 1992).
Colocar todo o ônus de evitar o superendividamento sobre o consumidor implica expectativas irrealistas: altos níveis de letramento financeiro, monitoramento orçamentário constante, resiliência psicológica diante do estigma, capacidade de antecipar perdas de renda ou aumentos súbitos de despesas, e controle sobre as incertezas da vida.
O estudo mostra que os participantes raramente superam a situação sozinhos. Alguns têm mais de setenta anos, não conseguem gerar novas fontes de renda e convivem com dívidas há muitos anos — não lhes resta alternativa senão viver o restante da vida superendividados, presos em um estado de colapso de risco não resolvido.
Suas experiências sublinham uma falha societal crítica em reconhecer que a responsabilidade pessoal não pode ser exercida dentro do caos.